“Diante de Lei ” | Texto de Franz Kafka

Diante da Lei

Por Franz Kafka

Diante da Lei há um guarda. Um camponês apresenta-se diante deste guarda, e solicita que lhe permita entrar na Lei. Mas o guarda responde que por enquanto não pode deixa-lo entrar. O homem reflete, e pergunta se mais tarde o deixarão entrar.

 – É possível – disse o porteiro -, mas não agora.

A porta que dá para a Lei está aberta, como de costume; quando o guarda se põe de lado, o homem inclina-se para espiar. O guarda vê isso, ri-se e lhe diz:

– Se tão grande é teu desejo, experimenta entrar apesar de minha proibição. Mas lembra-te de que sou poderoso. E sou somente o último dos guardas. Entre salão e salão também existem guardas, cada qual mais poderoso que o outro. Já o terceiro guarda é tão terrível que não posso suportar seu aspecto.

O camponês não havia previsto estas dificuldades; a Lei deveria ser sempre acessível para todos, pensa ele, mas ao observar o guarda, com seu abrigo de peles, seu nariz grande e como de águia, sua barba longa de tártaro, rala e negra, resolve que mais lhe convém esperar. O guarda dá-lhe um banquinho, e permite-lhe sentar-se a um lado da porta. Ali espera dias e anos. Tenta infinitas vezes entrar, e cansa ao guarda com suas súplicas. Com frequência o guarda mantém com ele breves palestras, faz-lhe perguntas sobre seu país, e sobre muitas outras coisas; mas são perguntas indiferentes, como as dos grandes senhores, e para terminar, sempre lhe repete que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que se abasteceu de muitas coisas para a viagem, sacrifica tudo, por mais valioso que seja, para subornar o guarda. Este aceita tudo, com efeito, mas lhe diz:

– Aceito-o para que não julgues que tenhas omitido algum esforço.

Durante esses longos anos, o homem observa quase continuamente o guarda: esquece-se dos outros, e parece-lhe que este é o único obstáculo que o separa da Lei. Maldiz sua má sorte, durante os primeiros anos temerariamente e em voz alta; mais tarde, à medida que envelhece, apenas murmura para si. Retorna à infância, e como em sua longa contemplação do guarda, chegou a conhecer até as pulgas de seu abrigo de pele, também suplica as pulgas que o ajudem e convençam o guarda. Finalmente sua vista enfraquece-se, e já não sabe se realmente há menos luz, ou se apenas o enganam seus olhos. Mas em meio da obscuridade distingue um resplendor, que surge inextinguível da porta da Lei. Já lhe resta pouco tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências desses longos anos se confundem em sua mente em uma só pergunta, que até agora não formou. Faz sinais ao guarda para que se aproxime, já que o rigor da morte endurece seu corpo. O guarda vê-se obrigado a abaixar-se muito para falar com ele, porque a disparidade de estaturas entre ambos aumentou bastante com o tempo, para detrimento do camponês.

– Que queres saber agora? – pergunta o guarda -. És insaciável.

– Todos se esforçam por chegar à Lei – diz o homem -; como é possível então que durante tantos anos ninguém mais do que eu pretendesse entrar?

O guarda compreende que o homem está para morrer, e para seus desfalecentes sentidos percebam suas palavras, diz-lhe junto ao ouvido com voz atroadora:

– Ninguém podia pretender isso, porque esta entrada era somente para ti. Agora vou fechá-la.

KAFKA, Franz. A colônia Penal. Editora Livraria Exposição do livro. São Paulo. 1965. p. 71 – 72


Quem-foi-Kafka-Documentario-e-livroPara aqueles que gostaram deste post indicamos também o post “Kafka vai ao cinema | 6 filmes inspirados em sua obra e/ou biografia”, para ver é só clicar aqui!

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A consciência coletiva | Texto de Émile Durkheim

A consciência coletiva

Por Émile Durkheim

O conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade forma um sistema determinado que tem sua vida própria; poderemos chamá-lo: a consciência coletiva ou comum. Sem dúvida, ela não tem por substrato um órgão único; é, por definição, difusa em toda extensão da sociedade; mas não deixa de ter caracteres específicos que fazem dela uma realidade distinta. Com efeito, é independente das condições particulares em que os indivíduos estão colocados; eles passam, ela permanece. É a mesma no norte e no sul, nas grandes e pequenas cidades, nas diferentes profissões. Da mesma forma, não muda a cada geração, mas, ao contrário, liga umas às outras as gerações sucessivas. Portanto, é completamente diversa das consciências particulares, se bem que se realize somente entre indivíduos. Ela é o tipo psíquico da sociedade, tipo que tem suas propriedades, suas condições de existência, seu modo de desenvolvimento, tudo como os tipos individuais, embora de uma outra maneira. Com razão, pois, tem o direito de ser designada por uma palavra especial. Aquela que empregamos mais acima não está, é verdade, isenta de ambiguidades. Como os termos coletivo e social são frequentemente tomados um pelo outro, é-se induzido a crer que a consciência coletiva é toda a consciência social, isto é, estende-se tão longe quanto a vida psíquica da sociedade, sendo que, sobretudo nas sociedades superiores, ela é só uma parte muito restrita. As funções judiciárias, governamentais, científicas, industriais, em uma palavra, todas as funções especiais são de ordem psíquica, visto consistirem em sistemas de representações e de ações: entretanto, estão evidentemente fora da consciência comum. Para evitar uma confusão que foi cometida, o melhor seria talvez criar uma expressão técnica que designasse especialmente o conjunto das similitudes sociais. Todavia, como o emprego de uma palavra nova, quando não é absolutamente necessária, não se apresenta livre de inconvenientes, manteremos a expressão mais habitual de consciência coletiva ou comum, mas lembrando-nos sempre do sentido estrito no qual a empregamos.

Podemos, pois, resumindo a análise que precede, dizer que um ato é criminoso quando ofende os estados fortes de definidos da consciência coletiva.

[…]

Não se contesta que todo delito seja universalmente reprovado, mas admite-se que a reprovação, da qual ele é objeto, resulta de sua delituosidade. Todavia, fica-se em seguida muito embaraçado para dizer em que consiste esta delituosidade. Numa imoralidade particularmente grave? Eu o consinto; mas é responder à questão pela questão e colocar uma palavra no lugar de outra; pois trata-se de saber precisamente o que é imoralidade e, sobretudo, esta imoralidade particular que a sociedade reprime por meio de penas organizadas e que constitui a criminalidade. Evidentemente ela não pode vir senão de uma ou várias características comuns a todas as variedades criminológicas; ora a única que satisfaz esta condição é a oposição que existe entre o crime, qualquer que seja, e certos sentimentos coletivos. É, pois, esta oposição que faz o crime, em vez de derivar dele. Em outros termos, não é preciso que um ato fira a consciência comum. Não reprovamos porque é um crime, mas é um crime porque o reprovamos. Quanto à natureza intrínseca destes sentimentos, é impossível especificá-la; eles têm os objetivos mais diversos e não se poderia dar uma forma única. Não se pode dizer que eles se relacionam nem aos interesses vitais da sociedade nem a um mínimo de justiça; todas estas definições são inadequadas. Mas, apenas porque um sentimento, quaisquer que sejam sua origem e seu fim, encontra-se em todas as consciências com um certo grau de força e precisão, todo ato que o fira é um crime. A psicologia contemporânea retorna cada vez mais à ideia de Espinosa segundo a qual as coisas são boas porque as amamos e não que a amemos por serem boas…

DRUKHEIM, Émile. Da divisão social do trabalho. Editora Abril. 1979. (Coleção Os Pensadores) p. 40 – 41.

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Filosofia africana e afro-brasileira | Biblioteca Digital

Contando com uma grande diversidade de textos o objetivo do espaço (filosofia-africana.weebly.com) é disponibilizar materiais em língua portuguesa que possam subsidiar pesquisas sobre a filosofia africana e afro-brasileira, assim como auxiliar na tarefa de professoras/es do ensino fundamental e médio em acessar recursos ainda pouco conhecidos em nossa língua.

Alguns textos dialogam com outras áreas do conhecimento, como educação, sociologia, antropologia, história, artes, entre outras, atendendo ao aspecto multidisciplinar que muitas vezes permeia o debate filosófico e que, também, auxilia a tarefa docente interdisciplinar.

O site é parte da pesquisa “Colaborações entre os estudos das africanidades e o ensino de filosofia”, desenvolvido pelo prof. Wanderson Flor do Nascimento, na Universidade de Brasília e em interação com o Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação, Raça, Gênero e Sexualidades Audre Lorde – GEPERGES Audre Lorde (UFRPE/UnB-CNPq). O site encontra-se ativo desde agosto de 2015 e em constante atualização

Para conhecer o site – CLIQUE AQUI!

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Sócrates: Uma vida examinada | Documentário online

O documentário “Sócrates: Uma vida examinada” aborda a obra e o pensamento de Sócrates, destacando questões como “O que é filosofia?”, “Qual é o papel do filósofo?”, “Como a filosofia faz parte da vida de alguém?”… Trata-se de uma ótima oportunidade para conhecer melhor a vida e o  pensamento do filósofo.

SócratesPara aqueles que gostaram deste post indicamos também o post “Sócrates | Filme”, para ver é só clicar aqui!

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Eu, etiqueta | Por Carlos Drummond de Andrade

Eu, Etiqueta

Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome… estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou – vê lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco da roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrina me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.

Carlos Drummond de Andrade


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Possibilidades do conhecimento sociológico | Texto de Zygmunt Bauman

Possibilidades do conhecimento sociológico

Por Zygmunt Bauman*

[…] Em face do mundo considerado familiar, governado por rotinas capazes de reconfirmar crenças, a sociologia pode surgir como alguém estranho, irritante e intrometido. Por colocar em questão aquilo que é considerado inquestionável, tido como dado, ela tem o potencial de abalar as confortáveis certezas da vida, fazendo perguntas que ninguém quer se lembrar de fazer e cuja simples menção provoca ressentimentos naqueles que detêm interesses estabelecidos. […]

[…]

Há quem se sinta humilhado ou ressentido se algo que domina e de que se orgulha é desvalorizado porque foi questionado. Por mais compreensível, porém, que seja o ressentimento assim gerado, a desfamiliarização pode ter benefícios evidentes. Pode em especial abrir novas e insuspeitas possibilidades de conviver com mais consciência de si, mais compreensão do que nos cerca em termos de um ou mais completo, de seu conhecimento social e talvez também com mais liberdade e controle.

Para todos aqueles que acham que viver e vida de maneira mais consciente vale a pena, a sociologia é um guia bem-vindo. […]

[…]

Pensar sociologicamente pode nos tornar mais sensíveis e tolerantes em relação à diversidade, daí decorrendo sentidos afiados e olhos abertos para novos horizontes além das experiências imediatas, a fim de que possamos explorar condições humanas até então relativamente invisíveis. […]

A arte de pensar sociologicamente consiste em ampliar o alcance e a efetividade prática da liberdade. Quanto mais disso aprender, mais o indivíduo será flexível diante da opressão e do controle e, portanto, menos sujeito a manipulação. […]

[…]  Nesse sentido, pensar sociologicamente significa entender de um modo um pouco mais completo quem nos cerca, tanto em suas esperanças e desejos quanto em suas inquietações e preocupações. […]

[…] Pensar sociologicamente, então, tem um potencial para promover a solidariedade entre nós, uma solidariedade fundada em compreensão e respeito mútuos, em resistência conjunta ao sofrimento e em partilhada condenação das crueldades que o causam. […]

*BAUMAN, Zygmunt. Aprendendo a pensar com a sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010. p. 24-26


Zygmunt Bauman

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Como a arte moldou o mundo | Documentário Online

Porque o mundo é como é? Esta é a questão principal abordada pela série de documentários “Como a Arte Moldou o Mundo” (2005). Partindo da arte rupestre, a obra investiga o uso das imagens ao longo da história e os efeitos produzidos por estes estímulos. Arte, política, cinema, vida e morte, são temas abordados pela série, uma ótima oportunidade para aqueles que apreciam arte e se interessam por questões contemporâneas…

Episódio 1: Mais humano que o humano

https://www.dailymotion.com/video/xluril

Episódio 2: O dia em que as imagens nasceram

https://www.dailymotion.com/video/xlursn

Episódio 3: A arte da persuasão (dividido em partes)

Episódio 4: Era uma vez

https://www.dailymotion.com/video/xlus3n

Episódio 5: Morrer e voltar

https://www.dailymotion.com/video/xlus9p

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Os jogos da linguagem | Texto de Ludwig Wittgenstein

Os jogos de linguagem
Por Ludwig Wittgenstein

23. Quantas espécies de frases existem? Afirmação, pergunta e comando, talvez? – há inúmeras espécies diferentes de emprego daquilo que chamamos de “signo”, “palavras”,  “frases”. E essa pluralidade não é nada fixo, um dado para sempre; mas novos tipos de linguagem, novos jogos de linguagem, que poderíamos dizer, nascem e outros envelhecem e são esquecidos (uma imagem aproximada disto pode nos dar as modificações da matemática.)

O termo “jogo de linguagem” deve aqui salientar que o falar da linguagem é uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida.

Imagine a multiplicidade de jogos de linguagem por meio destes exemplos e outros:

Comandar, e agir segundo comandos.

Descrever um objeto segundo uma descrição (desenho).

Relatar um acontecimento.

Expor uma hipótese e prová-la.

Apresentar os resultados de um experimento por meio de tabelas e diagramas.

Inventar uma história, ler.

Representar teatro.

Cantar uma cantiga de roda.

Resolver enigmas.

Fazer uma anedota; contar.

Resolver um exemplo de cálculo aplicado.

Traduzir de uma língua para outra.

Pedir, agradecer, maldizer, saudar, orar.

É interessante comparar a multiplicidade das ferramentas de linguagem e seus modos de emprego, a multiplicidade das espécies de palavras e frases com aquilo que os lógicos disseram sobre a estrutura da linguagem.

132. Queremos estabelecer uma ordem para a finalidade determinada; uma ordem entre as muitas possíveis; não a ordem. Com esta finalidade, salientaremos constantemente diferenças que nossas formas habituais de linguagem facilmente não deixam perceber. Isto poderia dar a aparência de que considerássemos como nossa tarefa reformar a linguagem.

Uma tal reforma para determinadas finalidades práticas, o aperfeiçoamento da nossa terminologia para evitar mal-entendidos no uso prático, é bem possível. Mas esses não são os casos com que temos algo a ver. As confusões com as quais nos ocupamos nascem quando a linguagem, por assim dizer, caminha no vazio, não quando trabalha.

*WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1984 (Os Pensadores) p. 57-58

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“A cidade do Sol” de Tommaso Campanella | Livro em PDF para download

“A cidade do Sol” de Tommaso Campanella (1568 – 1639) é a obra mais popular do filósofo renascentista e frade dominicano. A obra tornou-se um clássico, a primeira edição foi redigida como um diálogo em dialeto florentino, até chegar à famosa edição de 1623 em Frankfurt, intitulada Civitas Solis idea republicae philosophica.

Na obra, o autor apresenta sua ideia de sociedade e Estado “ideais”, uma cidade em que os moradores utilizam a razão para organizar suas vidas e viver em sociedade. Para aqueles que queiram conhecer melhor a obra e o pensamento do autor, trata-se de uma ótima oportunidade.

Para fazer o download do livro  – CLIQUE AQUI!

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A formação do espírito científico | Texto de Gaston Bachelard

A formação do espírito científico

Por Gaston Bachelard*

A ideia de partir de zero para fundamentar e aumentar o próprio acervo só pode vingar em culturas de simples justaposição, em que um fato conhecido é imediatamente uma riqueza. Mas, diante do mistério do real, a alma não pode, por decreto, tornar-se ingênua. É impossível anular, de um só golpe, todos os conhecimentos habituais. Diante do real, aquilo que cremos saber com clareza ofusca o que deveríamos saber. Quando o espírito se apresenta à cultura científica, nunca é jovem. Aliás, é bem velho, porque tem a idade de seus preconceitos. Aceder à ciência é rejuvenescer espiritualmente, é aceitar uma brusca mutação que contradiz o passado.

A ciência, tanto por sua necessidade de coroamento como por princípio, opõe-se absolutamente à opinião. Se, em determinada questão, ela legitima a opinião, é por motivos diversos daqueles que dão origem à opinião; de modo que a opinião está, de direito, sempre errada. A opinião pensa mal; não pensa: traduz necessidades em conhecimentos. Ao designar os objetos pela utilidade, ela se impede de conhecê-los. Não se pode basear nada na opinião: antes de tudo, é preciso destruí-la. Ela é o primeiro obstáculo a ser superado. Não basta, por exemplo, corrigi-la em determinados pontos, mantendo, como uma espécie de moral provisória, um conhecimento vulgar provisório. O espírito científico proíbe que tenhamos uma opinião sobre questões que não compreendemos, sobre questões que não sabemos formular com clareza. Em primeiro lugar, é preciso saber formular problemas. E, digam o que disserem, na vida científica os problemas não se formulam de modo espontâneo. É justamente esse sentido de problema que caracteriza o verdadeiro espírito científico. Para o espírito científico, todo conhecimento é resposta a uma pergunta. Se não há pergunta, não pode haver conhecimento científico. Nada é evidente. Nada é gratuito. Tudo é construído.

*BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. p. 17-18.


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O que é a filosofia? | Texto de Ortega y Gasset

O que é a filosofia?

Por Ortega y Gazzet*

A filosofia não é (…) senão uma atividade de conhecimento teorético, uma teoria do Universo. E mesmo quando a palavra Universo, ao abrir-se como uma janela panorâmica, parece alegrar um pouco o severo vocábulo “teoria”, não esqueçamos que o que faremos não é o Universo, fingindo-nos deuses de ocasião, mas somente sua teoria.

A filosofia não é, pois, o Universo. Não é sequer o trato imediato com o Universo que chamamos “viver”. Não vamos viver as coisas, mas simplesmente teorizá-las, contemplá-las. E contemplar uma coisa implica manter-se fora dela, estar disposto a conservar entre elas e nós a castidade de uma distância. Visamos uma teoria, ou o que é o mesmo, um sistema de conceitos sobre o Universo. Nada menos, mas também nada mais. Achar aqueles conceitos que colocados numa certa ordem nos permitem dizer quanto nos parece que há no Universo. Não se trata, pois, de nada tremendo. Não obstante os problemas filosóficos, por seu radicalismo, serem patéticos, a filosofia não o é. Parece-se mais a um exercício agradável, a uma ocupação diletante. Trata-se, simplesmente, de que encaixem uns nos outros, como peças de um quebra-cabeça, nossos conceitos. Prefiro dizer isso a recomendar a filosofia com qualificações solenes. Como todas as grandes atividades humanas, a filosofia tem uma dimensão esportiva e do esporte conserva o límpido humor e o rigoroso cuidado.

Outra coisa direi que talvez possa causar espécie, mas que longa experiência me ensinou, e vale não só para a filosofia como para todas as ciências, para todo o teórico em estrito sentido. É isto: quando alguém que jamais cultivou a ciência se aproxima dela, a maneira melhor de facilitar seu ingresso e esclarecer-lhe o que se deve fazer ao fazer ciência, seria dizer-lhe: “Não busque que o que vai escutar e se lhe propõe ir pensando o ‘convença’; não o tome a sério, mas como um jogo em que se o convida para que cumpra as regras”. O estado de ânimo que essa atividade tão pouco solene produz é a melhor disposição para iniciar o estudo científico. A razão é bem simples: o pré-cientista entende por “convencer-se” e por “tomar a sério” um estado de ânimo tão firme, tão sólido, tão penetrado de si mesmo que só se pode sentir diante do que nos é mais habitual e inveterado…

[Continua…]

Para ler o texto completo ou fazer o download – CLIQUE AQUI!

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O universo não é meu: sou eu. | Texto de Fernando Pessoa

O universo não é meu: sou eu.
Por Fernando Pessoa*

A renúncia é a libertação. Não querer é poder.

Que me pode dar a China que a minha a minha alma não me tenha dado? E, se minha alma não pode dar, como dará a China, se é com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei buscar riquezas ao Oriente, mas não riqueza de alma, porque a riqueza de minha alma sou eu, e eu estou onde estou, sem Oriente ou com ele.

Compreendo que viaje quem é incapaz de sentir. Por isso são tão pobres sempre como livros de experiência os livros de viagens, valendo somente pela imaginação de quem os escreve. E se quem os escreve tem imaginação, tanto nos pode encantar com a descrição minuciosa, fotográfica a estandartes, de paisagens que imaginou, como com a descrição, forçosamente menos minuciosa, das paisagens que supôs ver. Somos todos míopes, exceto para dentro. Só o sonho vê com o olhar.

No fundo, há na nossa experiência da terra duas coisas só – o universal e o particular. Descrever o universal é descrever o que é comum a toda a alma humana e a toda experiência humana –  o céu vasto, com o dia e a noite que acontecem dele e nele; o correr dos rios – todos da mesma água sororal e fresca; os mares, montanhas tremulantes extensas, guardando a majestade da altura no segredo da profundeza; os campos, as estações, as casas, as caras, os gestos; o traje e os sorrisos; o amor e as guerras; os deuses, finitos e infinitos; a Noite sem forma, mãe da origem do mundo; o Fado, o monstro intelectual que é tudo… Descrevendo isto, ou qualquer coisa universal como isto, falo com a alma a linguagem primitiva e divina, o idioma adâmico que todos entendem. Mas que linguagem estilhaçada e babélica falaria eu quando descrevesse o elevador de Santa Justa, a Catedral de Reims, os calções dos zuavos, a maneira como o português se pronuncia em Trás-os-Montes? Essas coisas são acidentes da superfície; podem sentir-se com o andar mas não com o sentir. O que no Elevador de Santa Justa é universal é a mecânica facilitando o mundo. O que na Catedral de Reims é verdade não é a Catedral nem o Reims, mas a majestade religiosa dos edifícios consagrados ao conhecimento da profundeza da alma humana. O que nos calções dos zuavos é eterno é a ficção colorida dos trajes, linguagem humana, criando uma simplicidade social que é em seu modo uma nova nudez. O que nas pronúncias locais é universal é o timbre caseiro das vozes de gente que vive espontânea, a diversidade dos seres juntos, a sucessão multicolor das maneiras, as diferenças dos povos, e a vasta variedade das nações.

Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.

*Fernando Pessoa em O livro do desassossego p. 144 – 145


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Ídolos | Texto de Francis Bacon

Ídolos

Por Francis Bacon*

Os ídolos da tribo estão fundados na natureza humana, na própria tribo ou espécie humana. É falsa a asserção de que os sentidos do homem são a medida das coisas. Muito ao contrário, todas as percepções, tanto dos sentidos como da mente, guardam analogia com a natureza humana e não com o universo. O intelecto humano é semelhante a um espelho que reflete desigualmente os raios das coisas e, dessa forma, as distorce e corrompe.

Os ídolos da caverna são os homens enquanto indivíduos. Pois cada um – além das aberrações próprias da natureza humana em geral – tem uma caverna ou uma cova que intercepta e corrompe a luz da natureza: seja devido à natureza própria e singular de cada um; seja devido à educação ou conversação com os outros: seja pela leitura dos livros ou pela autoridade aqueles que se respeitam e admiram; seja pela diferença de impressões, segundo ocorram em ânimo preocupado e predisposto ou em ânimo equânime e tranquilo; de tal forma que o espírito humano – tal como se acha disposto em cada um – é coisa séria, sujeita a múltiplas perturbações, e até certo ponto sujeita ao acaso. Por isso, bem proclamou Heráclito que os homens buscam em seus pequenos mundos e não no grande e universal. Há também os ídolos provenientes, de certa forma, do intercurso e da associação recíproca dos indivíduos do gênero humano entre si, a que chamamos de ídolos do foro devido ao comércio e consórcio entre os homens. Com efeito, os homens se associam graças ao discurso, e as palavras são cunhadas pelo vulgo. E as palavras, impostas de maneira imprópria e inepta, bloqueiam espantosamente o intelecto. Nem as definições, nem as explicações com que os homens doutos se munem e se defendem, em certos domínios, restituem as coisas ao seu lugar. Ao contrário, as palavras forçam o intelecto e o perturbam por completo. E os homens são, assim, arrastados a inúmeras e inúteis controvérsias e fantasias.

 Há, por fim, ídolos que imigram para o espírito dos homens por meio das diversas doutrinas filosóficas e também pelas regras viciosas da demonstração. São os ídolos do teatro: por parecer que as filosofias adotadas ou inventadas são outras tantas fábulas, produzidas e representadas, que figuram mundos fictícios e teatrais. Não nos referimos apenas às que ora existem ou às filosofias e seitas dos antigos. Inúmeras fábulas do mesmo teor se podem reunir e compor, porque as causas dos erros mais diversos são quase sempre as mesmas. Ademais, não pensamos apenas nos sistemas filosóficos, na sua universalidade, mas também nos numerosos princípios e axiomas das ciências que entraram em vigor, mercê da tradição, da credulidade e da negligência…

*BACON, Francis, Novum organum, p. 213.


Francis-Bacon-6-livros-para-downloadPara aqueles que queiram conhecer melhor a obra do autor, indicamos também o post “Francis Bacon | 6 livros para download”, para ver é só clicar aqui!

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Bukowski: Born into This | Documentário Online

O documentário Bukowski: Born Into This (2003) é uma dos mais abrangentes obras sobre a vida do escritor e poeta Charles Bukowski (1920-1994). O diretor John Dullaghan passou sete anos pesquisando e filmando o documentário, realizando dezenas de entrevistas com parentes, vizinhos, amigos de infância, colegas de trabalho dos Correios , namoradas e outros poetas, bem como amigos ilustres como Bono, Sean Penn, Harry Dean Stanton, Barbet Schroeder e Taylor Hackford. Trata-se de uma ótima oportunidade para aqueles que queiram conhecer melhor a vida e a obra do autor.

Para ver o documentário com melhor qualidade, faça o DOWNLOAD AQUI!

Charles-Bukowski-Livros-em-PDF-para-download-gratuitoPara aqueles que gostaram deste post, indicamos também o post “Charles Bukowski | 14 livros para download”, para ver clique aqui!

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A felicidade como atividade racional | Texto de Aristóteles

A felicidade como atividade racional

Por Aristóteles

A felicidade tem, por conseguinte, as mesmas fronteiras que a contemplação, e os que estão na mais plena posse desta última são os mais genuinamente felizes, não como simples concomitante mas em virtude da própria contemplação, pois que esta é preciosa em si mesma. E assim, a felicidade deve ser alguma forma de contemplação.

Mas o homem feliz, como homem que é, também necessita de prosperidade exterior, porquanto a nossa natureza não basta a si mesma e para os fins da contemplação: nosso corpo também precisa de saúde, de ser alimentado e cuidado. Não se pense, todavia, que o homem para ser feliz necessite de muitas ou de grandes coisas, só porque não pode ser supramente feliz sem bens exteriores. A autossuficiência e a ação não implicam excesso, e podemos praticar atos nobres sem sermos donos da terra e do mar. Mesmo desfrutando vantagens bastante moderadas pode-se proceder virtuosamente […]. E é suficiente que tenhamos o necessário para isso, pois a vida do homem que age de acordo com a virtude será feliz.

[…]

E assim, as opiniões dos sábios parecem harmonizar-se com os nossos argumentos. Mas, embora essas coisas também tenham certo poder de convencer, a verdade em assuntos práticos percebe-se melhor pela observação dos fatos da vida, pois estes são o fator decisivo. Devemos, portanto, examinar o que já dissemos à luz desses fatos, e se estiver em harmonia com eles aceitá-lo-emos, mas se entrarem em conflito admitiremos que não passa de simples teoria.

Ora, quem exerce e cultiva a sua razão parece desfrutar ao mesmo tempo a melhor disposição de espírito e ser extremamente caro aos deuses. Porque, se os deuses se interessam pelos assuntos humanos como nós pensamos, tanto seria natural que se deleitassem naquilo que é melhor e mais afinidade tem com eles (isto é, a razão), como que recompensassem os que a amam e honram acima de todas as coisas, zelando por aquilo que lhes é caro e conduzindo-se com justiça e nobreza. Ora, é evidente que todos esses atributos pertencem mais que a ninguém ao filósofo. É ele, por conseguinte, de todos os homens o mais caro aos deuses. E será, presumivelmente, também o mais feliz. De sorte que também neste sentido o filósofo será o mais feliz dos homens…

ARISTÓTELES. Ética e Nicômaco. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1984. p. 231 – 232 (Os pensadores)

Aristoteles-O-homem-é-um-animal-políticoPara aqueles que gostaram deste texto, indicamos também o post “O homem é um animal político”, para ver é só clicar aqui!

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Milton Santos | 24 Artigos para download em PDF

Milton Santos (1926 – 2001) destacou-se por seus trabalhos em diversas áreas da geografia, em especial nos estudos de urbanização do Terceiro Mundo. Foi um dos grandes nomes da renovação da geografia no Brasil ocorrida na década de 1970. Sua obra caracterizou-se por apresentar um posicionamento crítico ao sistema capitalista, e seus pressupostos teóricos dominantes na geografia de seu tempo.

Para aqueles que queiram conhecer melhor a obra do autor, segue abaixo 24 artigos do autor em PDF, para download:

1992: a redescoberta da natureza – CLIQUE AQUI!
A cidade como centro da região – CLIQUE AQUI!
As cidades mutiladas – CLIQUE AQUI!
A cidade de Jequié e sua região – CLIQUE AQUI!
A geografia aplicada – CLIQUE AQUI!
A questão do meio ambiente: desafios para a construção de uma perspectiva transdisciplinar – CLIQUE AQUI!
A responsabilidade do geógrafo – CLIQUE AQUI!
Aspectos geograficos da concurrência entre diversos meios de transporte na zona cacaueira da Bahia – CLIQUE AQUI!
A totalidade do diabo: como as formas geográficas difundem o capital e mudam estruturas sociais – CLIQUE AQUI!
Aula inaugural na UFBA em 1999 – CLIQUE AQUI!
Contribuição ao estudo dos centros de cidade: o exemplo da Cidade do Salvador
Da cultura à industria cultural – CLIQUE AQUI!
Desenvolvimento econômico e urbanização em países subdesenvolvidos: os dois sistemas de fluxo da economia urbana e suas implicações espaciais – CLIQUE AQUI!
Fatores que retardam o desenvolvimento da Bahia: a falta de indústrias – CLIQUE AQUI! 
Geografia: além do professor? – CLIQUE AQUI!
Globalização, regionalização: a proposta do Mercosul – CLIQUE AQUI!
O papel ativo da Geografia, um manifesto – CLIQUE AQUI!
O período técnico-científico e os estudos geográficos – CLIQUE AQUI!
O tempo nas cidades – CLIQUE AQUI!
Para que a geografia mude sem ficar a mesma coisa – CLIQUE AQUI!
Passado e presente das relações entre sociedade e espaço e localização pontual da indústria moderna no estado da Bahia – CLIQUE AQUI!
Por uma geografia cidadã: por uma epistemologia da existência – CLIQUE AQUI!
Sociedade e espaço: a formação social como teoria e como método – CLIQUE AQUI!
Modo de produção técnico-científico e diferenciação espacial – CLIQUE AQUI!

Milton-Santos-Documentario-Farofa-FilosoficaPara aqueles que gostaram deste post, indicamos também o post  “Milton Santos – O mundo visto do lado de cá | Documentário“,  para ver é só clicar aqui!

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O Corpo Utópico | Texto de Michel Foucault

O Corpo Utópico

Michel Foucault*

Basta eu acordar, que não posso escapar deste lugar que Proust, docemente, ansiosamente, ocupa uma vez mais em cada despertar. Não que me prenda ao lugar – porque depois de tudo eu posso não apenas mexer, andar por aí, mas posso movimentá-lo, removê-lo, mudá-lo de lugar –, mas somente por isso: não posso me deslocar sem ele. Não posso deixá-lo onde está para ir a outro lugar. Posso ir até o fim do mundo, posso me esconder, de manhã, debaixo das cobertas, encolher o máximo possível, posso deixar-me queimar ao sol na praia, mas o corpo sempre estará onde eu estou. Ele está aqui, irreparavelmente, nunca em outro lugar. Meu corpo é o contrário de uma utopia, é o que nunca está sob outro céu, é o lugar absoluto, o pequeno fragmento de espaço com o qual, em sentido estrito, eu me corporizo.

Meu corpo, topia desapiedada. E se, por ventura, eu vivesse com ele em uma espécie de familiaridade gastada, como com uma sombra, como com essas coisas de todos os dias que finalmente deixei de ver e que a vida passou para segundo plano, como essas chaminés, esses telhados que se amontoam cada tarde diante da minha janela? Mas, todas as manhãs, a mesma ferida; sob os meus olhos se desenha a inevitável imagem que o espelho impõe: rosto magro, costas curvadas, olhos míopes, careca, nada lindo, na verdade. Meu corpo é uma jaula desagradável, na qual terei que me mostrar e passear. É através de suas grades que eu vou falar, olhar, ser visto. Meu corpo é o lugar irremediável a que estou condenado.

Depois de tudo, creio que é contra ele e como que para apagá-lo, que nasceram todas as utopias. A que se devem o prestígio da utopia, da beleza, da maravilha da utopia? A utopia é um lugar fora de todos os lugares, mas é um lugar onde terei um corpo sem corpo, um corpo que será belo, límpido, transparente, luminoso, veloz, colossal em sua potência, infinito em sua duração, desligado, invisível, protegido, sempre transfigurado; e é bem possível que a utopia primeira, aquela que é a mais inextirpável no coração dos homens, seja precisamente a utopia de um corpo incorpóreo. O país das fadas, dos duendes, dos gênios, dos magos, e bem, é o país onde os corpos se transportam à velocidade da luz, onde as feridas se curam imediatamente, onde caímos de uma montanha sem nos machucar, onde se é visível quando se quer e invisível quando se deseja. Se há um país mágico é realmente para que nele eu seja um príncipe encantado e todos os lindos peraltas se tornem peludos e feios como ursos.

Mas há ainda outra utopia dedicada a desfazer os corpos. Essa utopia é o país dos mortos, são as grandes cidades utópicas deixadas pela civilização egípcia. Mas, o que são as múmias?  São a utopia do corpo negado e transfigurado. As múmias são o grande corpo utópico que persiste através do tempo. Há as pinturas e esculturas dos túmulos; as estátuas, que, desde a Idade Média, prolongam uma juventude que não terá fim. Atualmente, existem esses simples cubos de mármore, corpos geometrizados pela pedra, figuras regulares e brancas sobre o grande quadro negro dos cemitérios. E nessa cidade de utopia dos mortos, eis aqui que meu corpo se torna sólido como uma coisa, eterno como um deus. (Continua…)

Para ler o texto completo ou fazer o download – CLIQUE AQUI!

Foucault-por-ele-mesmo-e-contra-si-mesmo---Foucault-em-2-documentáriosPara aqueles que gostaram deste post, indicamos também o post “Dois documentários sobre Foucault: Foucault por ele mesmo e contra si mesmo…”, para ver é só clicar aqui!

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Os segredos esquecidos da biblioteca de Alexandria | Documentário online

Uma das bibliotecas mais célebres da História, a Biblioteca de Alexandria, situada na cidade de Alexandria no Egito, foi considerada um dos maiores centros do saber da Antiguidade. Sua construção foi patrocinada pelo sátrapa do Egito, Ptolomeu, que, sendo um apreciador da filosofia grega — tal como seu antecessor, Alexandre, o Grande — apoiou a criação de diversas escolas de pensamento sediadas na Biblioteca, além de museus e coleções permanentes, que acabaram atraindo diversas personalidades intelectuais de todo o mundo antigo para Alexandria…

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A Ciência e o Islã | Documentário

A série de documentários de 2009 “A ciência e o Islã”, produzida pela BBC, acompanha a visita do físico Jim Al-Khalili pela Síria, Irã, Tunísia e Espanha para contar a história do grande avanço científico no conhecimento que ocorreu no mundo islâmico entre os séculos VIII e XIV. A série é composta por 3 episódios: A linguagem e a ciência, O império da razão e o Poder da dúvida. Trata-se de uma ótima oportunidade para conhecer melhor certos eventos no que se refere à História da humanidade a partir de outras perspectivas…

Episódio 1: A linguagem da ciência

Episódio 2: O império da razão 

Episódio 3: Poder da dúvida

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Liberdade: uma condenação? | Texto de Jean-Paul Sartre

Liberdade: uma condenação

Por Jean-Paul Sartre

Dostoiévski escreveu: “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. Aí se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe, fica o homem por conseguinte, abandonado, já que não se encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada, não há desculpas para ele. Se, com efeito, a existência precede a essência, não será nunca possível referir uma explicação a uma natureza humana dada e imutável; por outras palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim, não temos nem atrás de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas.

É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre, porque uma vez lançado ao mundo é responsável por tudo quanto fizer. O existencialista não crê na força da paixão. Não pensará nunca que uma bela paixão é uma torrente devastadora que conduz fatalmente o homem a certos atos e que, por conseguinte, tal paixão é uma desculpa. Pensa, sim, que o homem é responsável por essa paixão. O existencialista não pensará também que o homem pode encontrar auxílio num sinal dado sobre a terra, e que o há de orientar; porque pensa que o homem decifra ele mesmo esse sinal como lhe aprouver. Pensa, portanto, que o homem, sem qualquer apoio e sem qualquer auxílio, está condenado a cada instante a inventar  homem…

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. In: SARTRE. Tradução de Vergílio Ferreira. São Paulo: Abril Cultural, 1973. P. 15 – 16. (Os pensadores)


Sartre-O-que-é-humanismo-livro-em-PDF-DownloadPara aqueles que gostaram deste post, indicamos também o post “O existencialismo é um humanismo de Jean-Paul Sartre | Livro em PDF para download”, para ver é só clicar aqui!

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O desejo manifesto pelos sonhos | Texto de Sigmund Freud

O desejo manifesto nos sonhos

Por Sigmund Freud

Em primeiro lugar, nem todos os sonhos são estranhos, incompreensíveis e confusos para a pessoa que sonhou. Examinando os sonhos de criancinhas, desde um ano e meio de idade, verificarão que eles são extremamente simples e de fácil explicação. A criancinha sonha sempre com a realização de desejos que o dia anterior lhe trouxe e que ela não satisfez. […] Estaria certamente resolvido, e de modo satisfatório, o enigma do sonho, se o do adulto não fosse nada mais que o da criancinha: realização de desejos trazidos pelo dia do sonho. E isso de fato é verdade. As dificuldades que esta solução apresenta removem-se uma a uma, mediante a análise minuciosa dos sonhos.

A primeira objeção e a mais importante é a de que os sonhos dos adultos via de regra têm um conteúdo ininteligível, sem nenhuma semelhança com a satisfação de desejos. Resposta: estes sonhos estão distorcidos, o processo psíquico correspondente teria originariamente uma expressão verbal muito diversa. O conteúdo manifesto do sonho, recordado vagamente de manhã e que, não obstante a espontaneidade aparente, se exprime em palavras com esforço, deve ser diferenciado dos pensamentos latentes do sonho que se têm de admitir como existentes no inconsciente. Esta deformação possui mecanismo idêntico ao que já conhecemos desde quando examinamos a gênese dos sintomas histéricos; é uma prova da participação da mesma interação de forças mentais tanto na formação dos sonhos como na dos sintomas. […] é obra das forças defensivas do ego, isto é, das resistências que na vigília impedem, de modo geral, a passagem para a consciência dos desejos reprimidos do inconsciente; enfraquecidas durante o sono, essas resistências ainda são suficientemente fortes para só os tolerar disfarçados. Quem sonha, portanto, reconhece tão mal o sentido de seus sonhos como o histérico as correlações e a significação de seus sonhos…

FREUD, Sigmund. Cindo lições de psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1997. p. 26-28


Freud-e-a-interpretacao-dos-sonhosPara aqueles que gostaram deste post, indicamos também o post “A interpretação dos sonhos de Sigmund Freud | Livro e documentário”, para ver é só clicar aqui!

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Filosofia: um guia para a felicidade | Documentário

A série de documentários Filosofia: um guia para a felicidade (2000) produzida pela BBC é baseada no livro “As consolações da filosofia” do escritor suíço Alain Botton. Tanto no livro, quanto na série, Alain de Botton apresenta as ideias de seis filósofos e suas “respostas” para algumas das mazelas humanas, como a ira , o sentimento de inadequação ou inferioridade, as dificuldades de viver, a falta de dinheiro, o sofrimento por amor, a falta de confiança…

Uma ótima oportunidade para conhecer melhor a obra e o pensamento dos filósofos abordados: Sócrates e a autoconfiança | Epicuro e a felicidade | Sêneca e a raiva | Montaigne e a autoestima | Schopenhauer e o amor | Nietzsche e o sofrimento

(Trata-se de uma lista de vídeos apresentada na ordem indicada acima, portanto, é só adiantar a lista no menu do próprio vídeo para localizar o episódio desejado.)

historia-da-filosofiaPara aqueles que gostaram deste post, indicamos também o post “10 filmes sobre a História da filosofia”, para ver é só clicar aqui!

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Praticar uma injustiça é o maior dos males | Texto de Platão

Praticar uma injustiça é o maior dos males
Por Platão*

SÓCRATES: …Porque o maior dos males consiste em praticar uma injustiça.

POLO: Esse é o maior? Não é maior sofrer uma injustiça?

SÓCRATES: Absolutamente não.

POLO: Preferirias então sofrer uma injustiça a praticá-la?

SÓCRATES: Não preferiria uma coisa nem outra; mas se fosse inevitável sofrer ou praticar uma injustiça, preferiria sofrê-la.

[…]

SÓCRATES: Considerando-se dois doentes, seja do corpo ou da alma, qual o mais infeliz: o que se trata e obtém a cura, ou aquele que não se trata e permanece doente?

POLO: Evidentemente, aquele que não se trata.

SÓCRATES: E não é verdade que pagar pelos próprios crimes seria a libertação de um mal maior?

POLO: É claro que sim.

SÓCRATES: Isso porque a justiça é uma cura moral que nos disciplina e nos torna mais justos?

POLO: Sim.

SÓCRATES: O mais feliz, porém, é aquele que não tem maldade na alma, pois ficou provado que esse é o maior dos males.

POLO: É claro.

SÓCRATES: Em segundo lugar vem aquele que dessa maldade foi libertado.

POLO: Naturalmente.

[…]

SÓCRATES: Conclui-se então que o maior mal consiste em praticar uma injustiça.

POLO: Sim, ao que parece.

SÓCRATES: No entanto, ficou claro que pagar por seus crimes leva à libertação do mal.

POLO: É possível que sim.

SÓCRATES: E não pagar por eles é permanecer no Mal.

POLO: Sim.

SÓCRATES: Cometer uma injustiça é então o segundo dos males, sendo o primeiro, e maior, não pagar pelos crimes cometidos.

POLO: Sim, ao que parece.

SÓCRATES: Mas, meu amigo, não era disso que discordávamos? Tu consideravas feliz Arqueleu [um governante da época] por praticar os maiores crimes sem sofrer nenhuma punição; a meu ver, é o oposto. Arquelau, ou qualquer outro que não pague pelos crimes que comete, deve ser mais infeliz do que outros. Será sempre mais infeliz o autor da injustiça do que a vítima, e mais ainda aquele que permanece impune e não paga por seus crimes. Não era isso o que eu dizia?

POLO: Sim.

[…]

SÓCRATES: Afirmo, Cálicles [outro interlocutor no diálogo], que o maior mal não é ser golpeado na face sem motivo, ou ser ferido, ou roubado. Bater-me e ferir a mim e aos meus, escravizar-me, assaltar minha casa, em suma, causar a mim e aos meus algum dano é pior e mais desonroso para quem o faz do que para mim, que sofro esses males. Essas conclusões a que chego foram provadas ao longo de nossa discussão e, para usar uma imagem forte, firmemente estabelecida por uma cadeia de argumento rígida como ferro, tanto quanto posso julgar até esse momento. E a menos que tu, ou alguém mais radical, rompa esta cadeia, ninguém que a afirme algo diferente pode estar certo. De minha parte, sigo meu princípio invariável. Não sei se isso é verdade, mas de todas as pessoas que encontrei até agora nenhuma foi capaz de afirmar o contrário sem cair no ridículo. Assumo, portanto, que esta seja a verdade. E se estou correto, e fazer o Mal é o pior que pode ocorrer para aquele que o pratica, e maior mal ainda, se possível, é não ser punido por isso, que tipo de proteção seria ridículo um homem não poder prover para si próprio? Deveria ser, com certeza, a contra o que nos causa o maior mal…

*PLATÃO. Górgias. In: MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética: de Platão a Foucault. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. p. 23-25.


Socrates-Filme-Farofa-FilosoficaPara aqueles que gostaram deste post, indicamos também o post “Sócrates | Filme”, para ver é só clicar aqui!

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Futebol dos filósofos: Grécia x Alemanha | Vídeo

Qual seria o placar de uma partida de futebol entre filósofos alemães e gregos?Vale lembrar que o juíz da partida é o Confúcio e seus auxiliares são Santo Agostinho e São Thomás de Aquino…Segue a escalação:

TIME ALEMÃO: 1.Leibniz, 2.Kant, 3.Hegel, 4.Schopenhauer, 5.Schelling, 6.Beckenbauer, 7.Jaspers, 8.Schlegel, 9.Wittgeinstein, 10. Nietzsche e 11.Heidegger.

TIME GREGO: 1.Platão, 2.Epiteto, 3.Aristóteles, 4.Sófocles, 5.Empédocles, 6.Plotino, 7.Epícuro, 8.Heráclito, 9.Demócrito, 10. Sócrates e 11. Arquimedes.

Ps.: a “Partida de Futebol dos Filósofos” (The Philosophers’ Football Match) é uma esquete criada pelo grupo de comediantes Monty Python (http://pythonline.com/) que descreve um jogo de futebol no Estádio Olímpico em 1972 durante as Olimpíadas de Munique entre os filósofos que representam a Grécia e a Alemanha.

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“Fogo Morto” de José Lins do Rego | Filme e livro

Autor de uma obra que retrata a decadência dos engenhos de cana-de-açúcar do Nordeste, José Lins do Rego (1901 – 1957), forjou histórias no limiar entre o documental e o ficcional. Em seus livros, o autor representa com maestria os conflitos gerados a partir do contraste entre um sistema quase feudal, baseado nas famílias dos latifundiários, que ainda reinava no Nordeste brasileiro da primeira metade do século XX, e o novo sistema industrial que o próprio século XX introduziu como paradigma para todo o país.

Para aqueles que queiram conhecer melhor a obra e o pensamento do autor segue abaixo o livro e o filme Fogo Morto:

LIVRO:

Para fazer o download do livro – CLIQUE AQUI!

FILME:

Download via Lelivro

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O triunfo da razão | Por Baruch Espinosa

O triunfo da razão
Por Baruch Espinosa*

[…] para forjar o ferro é necessário um martelo e, para ter um martelo, é necessário fabricá-lo, para o que são necessários outro martelo e outros instrumentos, os quais, por sua vez, para que os possuíssemos, exigiriam ainda outros instrumentos, e assim ao infinito […] do mesmo modo que os homens, de início, conseguiram, ainda que dificultosa e imperfeitamente, fabricar, com instrumentos naturais, certas coisas muito fáceis e, feitas estas, fabricaram outras coisas mais difíceis já com menos trabalho e maior perfeição e assim, progressivamente, das obras mais simples aos instrumentos, e dos instrumentos a outras obras e outros instrumentos, chegaram a fabricar com pouco trabalho coisas tão difíceis; assim também a razão pela sua força natural fabrica para si instrumentos intelectuais com os quais ganha outras forças para outras obras intelectuais e com estas cria outros instrumentos ou capacidades para continuar investigando; e assim, progressivamente, avança até atingir o cume da sabedoria.

*ESPINOSA. Tratado da reforma da inteligência. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1966. p. 98-99


Espinosa-Filme-Farofa-FilosoficaPara aqueles que gostaram deste post indicamos também “Espinosa – O apóstolo da razão | Filme”, para ver é só clicar aqui!

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A soberania é inalienável | Por Jean-Jacques Rousseau

A soberania é inalienável

Por Jean-Jacques Rousseau*

A primeira e mais importante consequência dos princípios até aqui estabelecidos é que somente a vontade geral pode dirigir as forças do Estado de acordo com a finalidade da sua instituição, que é o bem comum, porque, se a oposição dos interesses particulares tornou necessário o estabelecimento das sociedades, foi a concordância desses mesmos interesses que o tornou possível. O que forma o vínculo social é o que há de comum nesses diferentes interesses, e, se não houvesse um ponto no qual todos os interesses se põem de acordo, nenhuma sociedade poderia existir. Ora, é unicamente com base nesse interesse comum que a sociedade deve ser governada.

Digo, portanto, que a soberania, que é o exercício da vontade geral, nunca pode ser alienada e que o soberano, que é um ser coletivo, só pode ser representado por si mesmo. O poder pode ser transmitido, não a vontade.

De fato, se não é impossível que uma vontade particular concorde em algum ponto com a vontade geral, é impossível pelo menos que essa concordância seja duradoura e constante, porque a vontade particular tende por natureza às preferências, e a vontade geral à igualdade. É ainda mais impossível ter uma garantia dessa concordância, mesmo que essa concordância perseverasse, o que não seria um efeito da arte mas do acaso. O soberano pode muito bem dizer: “Quero agora o que quer certo homem ou pelo menos o que ele quis dizer”. Mas ele não pode dizer: “O que esse homem quiser amanhã, eu também quererei”, porque é absurdo a vontade se dê grilhões para o futuro e porque não depende de nenhuma vontade consentir em nada que seja contrário ao bem do ser que quer. Portanto, se o povo promete simplesmente obedecer, ele se dissolve por esse ato, perde sua qualidade de povo. A partir do instante em que tem um amo, não há mais um soberano, e o corpo político é por conseguinte destruído. Isso não quer dizer que as ordens dos chefes não possam ser tidas como vontades gerais, enquanto o soberano, que é livre para se opor a elas, não o fizer. Num caso assim, do silêncio universal deve-se deduzir o consentimento do povo…

*ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Companhia das letras/Peguin, 2011. p. 77 – 78.


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“Geografia da fome” de Josué de Castro | Livro e documentário

Josué de Castro (1908 – 1973) foi um médico, professor e sociólogo brasileiro. Partindo de sua experiência pessoal no Nordeste brasileiro, publicou uma extensa obra que inclui: Geografia da fomeGeopolítica da fomeSete palmos de terra e um caixão e Homens e caranguejos. Exerceu a Presidência do Conselho Executivo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), foi também Embaixador brasileiro junto à Organização das Nações Unidas (ONU) e foi indicado ao Nobel da Paz nos anos de 1953, 1963, 1964 e 1965.

Seu trabalho, no que se refere à fome, é uma das obras mais fundamentais para o entendimento da questão. Para aqueles que queiram conhecer melhor a obra e o pensamento de Josué de Castro, seguem abaixo o link para o download do livro “Geografia da fome” publicado originalmente em 1946 e o documentário de 1994 de Silvio Tendler:

Livro “A geografia da fome” de Josué de Castro:

Para fazer o download do livro – CLIQUE AQUI!

Documentário “Josué de Castro | Cidadão do mundo”:

Milton-Santos-Documentario-Farofa-FilosoficaPara aqueles que gostaram deste post, indicamos também o post “Milton Santos – O mundo visto do lado de cá | Documentário” para ver é só clicar aqui!

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Noam Chomsky em 4 entrevistas

 

Noam Chomsky tornou-se um autor fundamental no que refere à linguística moderna, com a formulação teórica e o desenvolvimento do conceito de gramática transformacional, ou generativa, cuja principal novidade seria a distinção de dois níveis diferentes na análise das frases: por um lado, a “estrutura profunda”, conjunto de regras de grande generalidade a partir das quais seria gerada a “estrutura superficial” da frase.

Para aqueles que queiram conhecer melhor a obra e o pensamento de Noam Chomsky seguem abaixo algumas entrevistas do autor:

O conceito de linguagem

Roda Viva | 1996

TV Brasil

Globonews

Foucault-x-Chomsky-Debate-Online-Farofa-FilosoficaPara aqueles que gostaram deste post indicamos também o post “Foucault x Chomsky: Existe alguma coisa que seja inata à natureza humana? | Debate em vídeo”, para ver é só clicar aqui!

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Dez teses sobre a política | Por Jacques Ranciére

Dez teses sobre a política
Por Jacques Ranciére
  1. A política não é o exercício do poder. A política deve ser definida por ela mesma, como um modo de agir específico posto em ação por um sujeito próprio e realçando uma racionalidade própria. É a relação política que permite pensar o sujeito político, e não o inverso.

[…]

Perde-se aquilo que é próprio da política, se a pensamos como um mundo vivido específico. A política não poderia ser definida por nenhum sujeito que lhe preexistisse. É na forma mesma de sua relação que deve ser buscada a “diferença” política que permite pensar seu sujeito. Se retomamos a definição aristotélica de cidadão, vemos que há o nome de um sujeito que se define por um fazer parte de um modo de agir e ao sofrer que corresponde a esse modo de agir. Se há algo próprio da política nós o vemos por inteiro nessa relação que não é uma relação entre dois sujeitos, mas uma relação entre dois termos contraditórios pela qual se define um sujeito. A política desaparece quando desfazemos esse nó de um sujeito e uma relação. É isso que se passa em todas as ficções especulativas ou empiristas, que buscam a origem da relação política nas propriedades de seus sujeitos e nas condições de sua reunião. A questão tradicional: “por qual razão os homens se reúnem em comunidades políticas?” é já sempre uma resposta, e uma resposta que faz desaparecer o objeto que ela pretende explicar ou fundar, seja a forma do fazer parte político, que desaparece no jogo dos elementos ou dos átomos de sociabilidade.

  1. O próprio da política é a existência de um sujeito definido por sua participação em relação aos contrários. Apolítica é um tipo de ação paradoxal.

[…]

  1. A política é uma ruptura específica com a lógica da arkhé [‘o princípio’]. Ela não supõe simplesmente a ruptura da distribuição “normal” das posições entre aquele que exerce uma potência e aquele que a sofre, mas uma ruptura na ideia das disposições que tornam “próprias” tais posições. (Continua…)
Para ler o texto completo ou fazer o download – CLIQUE AQUI!

Ranciere-O-odio-a-democracia-Livro-em-pdf-para-DownloadPara aqueles que gostaram deste post indicamos também o post “O ódio à democracia” de Jacques Ranciére | Livro em PDF, para download”, para ver é só clicar aqui!

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